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02/08/2017

A sua turma

Por Kika Coutinho

A sua turma
Primeiro eu achei que era a comida. O pão de queijo, a tapioca, o brigadeiro. Era isso que realmente me fazia falta na terra do tio Sam. Mas não deve ter durado um domingo essa saudade, já que, na Florida, você é capaz de achar uma baiana fazendo vatapá na sua porta, mais rápido do que na própria Bahia.

Só que a saudade seguia. Talvez dos almoços longos, daquele pão na chapa com requeijão da padoca da esquina, do pingado sem ter que ser explicado, das ruas de paralelepípedo do meu bairro ou das consultas de 2 horas no meu pediatra.
"Que bobagem..." - os outros diziam, estranhando. "Você está no primeiro mundo!" - eles insistiam achando que, aqui, Oreo dá em árvore e iphones brotam no chão do nosso quintal.

"Gente, eles cantam parabéns pra você sem bater palmas!" Expliquei diversas vezes, tentando alardear que não pode ser muito feliz uma nação cuja celebração de aniversário é cantada em slow motion: "Haaaaaappy Biiiiiiiiiiithdaaaay to yoooou" - "meu Deus, tá tudo bem?" Eu quis perguntar no primeiro aniversário que fui, pesarosa pela criança, enquanto ouvia a dramática melodia, longa e solene.
Mas estava. Era assim mesmo. Percebi antes de chegar ao final da canção. E, antes de completar um ano vivendo nos Estados Unidos, percebi também que essa nação que recebe o mundo, tem mesmo inúmeras virtudes.
Segurança, escolas grátis e um por do sol laranja de babar, são só as óbvias; de maneira que não é nem justo atacar o lugar que nos acolhe com céu azulzinho e onibus amarelos.

Então, por que ainda fazia tanta falta o diacho do purê de mandioquinha?
Descobri recentemente a resposta. Não é o purê, é a falação ao redor dele, sempre às gargalhadas, que falta.

Por que ainda sinto tantas saudades dos restaurantes descolados de São Paulo? Porque a mesa era pra 12.
Ou por que não me adapto a esse outlet gigante com todas as marcas e preços do mundo? Porque lá, naquela loja xexelenta e esnobe do shopping de SP, minha melhor amiga - aquela das histórias escabrosas da adolescência - opinava do provador ao lado.

A verdade é que não importa tanto o que você come, mas com quem você divide a mesa.
Não importa tanto o ritmo da música, mas quem vai pra pista dançar com você.
Não faz tanta diferença viver numa mansão ou num sobrado - faz diferença, sim, quem ocupa a sala da sua casa.
Não importa onde, nem como, e talvez nem quando. Importa com quem.

A prova disso é que quando você reúne a sua turma, sua família, seus amigos e amores, pode ser em Guarulhos ou em Weston ou numa cabana na Sibéria. O coração vai estar sempre quentinho. Mesmo que vocês estejam comendo especiarias da Islândia; a alegria não deixará espaço para faltas.

O melhor sabor, é que se sente com a sua turma. 

Compartilhar de uma mesma história, de afetos e sorrisos verdadeiros. 
Se você pode, corra, e junte-se com os seus. Amigos novos ou antigos, juntem-se. Aproximem-se e, às gargalhadas, celebrem. 
Com champagne francês ou com a nossa mardita - a vida é boa com quem se ama.

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Kika Coutinho

Kika Coutinho é escritora, psicóloga e mantem, no facebook, a página de textos pessoais "não.sou.daqui"

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